
“Deixa que eu faço!”
15 de setembro de 2026
De novo? Sim, de novo.
24 de setembro de 2026Questões importantes também podem fazer parte da infância. O desafio está em encontrar a linguagem, a experiência e o tempo certos para abordá-las.
“Isso não é assunto para criança.”
A frase costuma nascer de uma intenção legítima: preservar a infância de preocupações, conflitos e problemas que pertencem ao universo dos adultos.
Mas será que apresentar o mundo às crianças significa necessariamente antecipar esse mundo?
As crianças já convivem com diferenças. Percebem características físicas, modos de falar, costumes e configurações familiares. Observam a chuva, o calor, o lixo na rua, as plantas e os animais. Ouvem histórias, encontram manifestações culturais diferentes das suas, fazem perguntas sobre aquilo que veem e tentam compreender por que as pessoas e as coisas são como são.
Ou seja: o mundo já está presente na infância.
A questão pedagógica talvez não seja, portanto, decidir entre mostrar ou esconder determinados assuntos. Está em descobrir como abordá-los respeitando a maneira própria que a criança tem de conhecer o mundo.
Não é antecipar. É encontrar uma linguagem.
Falar sobre mudanças climáticas com uma criança pequena não significa apresentar gráficos sobre o aquecimento global.
Pode começar pela chuva. Pelo calor. Pelo vento. Pelo que acontece quando o lixo impede a passagem da água. Por uma história, uma brincadeira, uma experiência no jardim ou pela observação de algo que aconteceu no bairro.
Da mesma forma, trabalhar o letramento racial na Educação Infantil não precisa começar por conceitos abstratos. Pode estar na diversidade das personagens dos livros, das bonecas e dos brinquedos; nas histórias que são contadas; na valorização de diferentes características físicas; nas referências apresentadas às crianças e nas conversas que surgem a partir de suas próprias observações.
O respeito às diferenças também começa muito antes de qualquer definição de “diversidade”. Ele se constrói na convivência: perceber que o outro pode gostar de coisas diferentes, ter outra história, outra família, outros hábitos — e que essas diferenças fazem parte da experiência coletiva.
E conhecer culturas e saberes dos povos originários pode significar ir além de representações folclóricas ou de uma data específica do calendário. É descobrir histórias, palavras, músicas, modos de produzir objetos, relações com a natureza e diferentes maneiras de compreender e habitar o mundo.
Em todos esses casos, o assunto pode ser grande.
A porta de entrada é que precisa ter o tamanho da infância.
Primeiro viver, depois nomear
Na primeira infância, grande parte da aprendizagem acontece pela experiência.
A criança toca, escuta, observa, experimenta, brinca, pergunta, imita, inventa e conversa. Aos poucos, estabelece relações entre essas experiências e começa a construir suas próprias explicações.
Por isso, temas complexos podem ganhar outras formas quando entram na Educação Infantil.
Uma história pode abrir espaço para uma conversa sobre diferenças. Uma situação ocorrida no pátio pode provocar uma reflexão sobre convivência. Uma chuva forte pode despertar perguntas sobre a cidade e o ambiente. Uma música pode apresentar outra tradição cultural. Uma brincadeira pode revelar diferentes maneiras de cooperar e resolver conflitos.
Não se trata de transformar cada experiência infantil em uma aula sobre grandes questões sociais.
Trata-se de não desperdiçar as perguntas que a própria experiência da criança produz.
A escola também ajuda a construir o olhar
Existe ainda uma dimensão importante nessa escolha.
Quando selecionamos os livros que estarão ao alcance das crianças, as histórias que serão contadas, as imagens que ocuparão as paredes, as músicas que serão ouvidas, as culturas que serão apresentadas e as experiências que serão propostas, estamos ajudando a construir referências.
E referências importam.
Elas ampliam aquilo que a criança conhece como possível, ajudam a reconhecer a si mesma e permitem descobrir outras pessoas, outros modos de viver e outras formas de compreender o mundo.
Na Sonho Encantado, entendemos que essa também é uma responsabilidade da Educação Infantil.
Não oferecer respostas prontas para questões que acompanharão as crianças por muitos anos, mas criar experiências nas quais elas possam observar, perguntar, encontrar diferenças, estabelecer relações e começar a construir suas próprias referências.
Sempre respeitando a idade, o tempo, a curiosidade e as possibilidades de compreensão de cada criança.
Conhecer o mundo também é coisa de criança
Preservar a infância não precisa significar construir uma redoma ao redor dela.
Pode significar justamente o contrário: permitir que a criança encontre o mundo aos poucos, acompanhada por adultos capazes de transformar questões complexas em experiências possíveis de serem vividas, pensadas e sentidas.
Haverá muito tempo para conceitos, definições e explicações mais elaboradas.
Na infância, podemos começar pelo encontro. Pela curiosidade. Pela experiência. Pela pergunta.
Porque a criança não precisa conhecer menos o mundo.
Precisa conhecê-lo na linguagem da infância.
Para saber mais.
Base Nacional Comum Curricular — BNCC, Ministério da Educação. Na Educação Infantil, estabelece interações e brincadeiras como eixos estruturantes e os direitos de conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se. Também propõe campos de experiências que partem das situações concretas da vida cotidiana e dos saberes das crianças. Consultar a BNCC
Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil / Ministério da Educação. Reforçam que a Educação Infantil deve combater racismo e discriminações, reconhecer as culturas plurais presentes na comunidade e considerar diferentes saberes e especificidades culturais. Orientações do MEC para a Educação Infantil
Educação das Relações Étnico-Raciais — Ministério da Educação. As diretrizes nacionais tratam da valorização das histórias e culturas africanas e afro-brasileiras e da construção de uma educação antirracista. O próprio MEC orienta que essas referências estejam presentes já nas experiências da Educação Infantil, inclusive nos livros, brinquedos, imagens e demais elementos do ambiente. Educação das Relações Étnico-Raciais — MEC
Lei nº 11.645/2008 e orientações do CNE/MEC. Estabelecem a presença da história e das culturas afro-brasileira e indígena no currículo e dão fundamento à valorização das contribuições desses povos para a formação da sociedade brasileira. Lei nº 11.645/2008
UNESCO — Educação sobre Mudança Climática e Educação para o Desenvolvimento Sustentável. A UNESCO defende a educação como elemento fundamental para desenvolver conhecimentos, valores, atitudes e competências relacionados ao ambiente e à sustentabilidade, aproximando a aprendizagem climática das experiências e dos contextos vividos pelos estudantes. Educação sobre Mudança Climática — UNESCO




