
A criança não precisa conhecer menos o mundo
17 de setembro de 2026O que a repetição revela sobre o desenvolvimento infantil
Uma história termina e, antes mesmo de fecharmos o livro, vem o pedido: “De novo!”
A música acaba e precisa começar outra vez. A torre de blocos é construída, derrubada e reconstruída. Um objeto entra e sai várias vezes do mesmo recipiente. A mesma brincadeira reaparece hoje, amanhã e depois.
Para quem observa, pode parecer que nada de novo está acontecendo.
Mas será mesmo?
Repetir também é explorar
Especialmente nos primeiros anos de vida, a criança conhece o mundo fazendo.
Ela toca, movimenta, empilha, derruba, encaixa, retira, coloca de volta. E muitas dessas ações acontecem repetidas vezes.
Essa repetição pode fazer parte do próprio processo de exploração. Ao agir novamente sobre um objeto ou retornar a uma brincadeira, a criança reencontra uma experiência e tem a oportunidade de experimentar movimentos, perceber efeitos e ampliar gradualmente suas possibilidades de ação.
O Ministério da Educação chama atenção justamente para esse aspecto ao tratar do brincar na Educação Infantil: ações repetidas de manipulação de brinquedos fazem parte da maneira como os bebês exploram.
Ou seja: nem sempre fazer a mesma coisa significa estar no mesmo lugar.
O conhecido também pode abrir espaço para novas descobertas
Pense em uma criança que brinca de empilhar blocos.
Primeiro, talvez o desafio seja simplesmente conseguir colocar uma peça sobre a outra. Depois de algumas tentativas, ela pode começar a experimentar tamanhos, posições, alturas e combinações diferentes.
Ou pense naquela história que ela pede para ouvir inúmeras vezes. Aos poucos, reconhece personagens, situações, palavras e sequências. Já sabe que alguma coisa está para acontecer e espera por ela.
Existe algo importante nessa familiaridade.
Na Educação Infantil, a própria organização de experiências que se repetem ao longo do cotidiano ajuda a criança a construir referências. Segundo o Ministério da Educação, essa regularidade permite que ela se organize no tempo, antecipe determinadas atividades e se sinta mais confiante diante do que acontecerá.
Repetir, portanto, não precisa ser o contrário de descobrir.
O conhecido pode ser justamente o ponto de partida para perceber alguma coisa nova.
Brincar é também conhecer o mundo
O brincar ocupa um lugar central nesse processo.
É brincando que a criança explora o ambiente, experimenta possibilidades e desenvolve diferentes formas de expressão e interação.
Materiais simples podem ganhar muitos significados. Um bloco pode fazer parte de uma torre e, pouco depois, virar um carro, uma comida ou uma peça de uma construção imaginária. Uma ação inicialmente realizada de uma única maneira pode ganhar variações à medida que a experiência se amplia.
Por isso, mais importante do que perguntar apenas quantas vezes uma criança repetiu determinada brincadeira é observar o que acontece enquanto ela brinca.
O que ela tenta fazer?
O que mudou desde a última vez?
Que novas possibilidades apareceram?
Como ela reage quando algo acontece de maneira diferente?
Observar antes de interpretar
Isso também significa evitar uma conclusão simples demais: nem toda repetição tem necessariamente o mesmo significado.
A idade da criança, o contexto, a intensidade, seus interesses e a maneira como a brincadeira evolui precisam ser considerados.
O próprio material do Ministério da Educação recomenda que educadores observem não apenas com quais brinquedos a criança brinca, mas como brinca, com quem brinca e o que passa a fazer de novo ao longo do tempo.
É uma diferença importante.
Em vez de olhar apenas para a atividade, passamos a olhar para o processo.
E talvez seja essa a melhor resposta quando uma criança pedir pela décima vez a mesma história ou decidir reconstruir aquela torre que acabou de derrubar:
De novo? Sim, de novo.
Porque, para ela, fazer outra vez pode não ser simplesmente repetir.
Pode ser mais uma maneira de compreender o mundo.
Quer saber mais?
Ministério da Educação — Brinquedos e brincadeiras na Educação Infantil
Documento técnico voltado à organização do brincar em creches e à compreensão de sua importância para as experiências e o desenvolvimento das crianças.
Ministério da Educação — Rotina na Educação Infantil
Material que explica a importância da regularidade na organização do cotidiano e sua relação com a construção de referências, antecipação e confiança pela criança.
Ministério da Cidadania — Jogos e brincadeiras das culturas populares na primeira infância
Publicação brasileira sobre o brincar desde os primeiros anos de vida e suas relações com exploração do ambiente, linguagem, motricidade e desenvolvimento sensorial e social.




